O que meter na cabeça

Este será certamente, dos artigos que mais controvérsia suscitará nos próximos tempos. Vamos falar de capacetes. Sim, esse objecto pelo qual já tantos reclamaram da sua falta aqui no Lisbon Cycle Chic. Antes de saltarem já para o fim, e comentarem a dizer que não concordam, leiam o texto calmamente. E se estiverem mesmo interessados em debater o assunto, leiam também os links que aqui coloco.

Aqui na coluna do lado direito, encontram a campanha da ECF e uma página no Facebook que abordam precisamente este tema. Tal como lá está escrito, não sou contra o uso de capacete. Volto a repetir: não sou contra o uso do capacete. Ok, agora que já esclareci, vou completar. Sou contra leis que obrigam o seu uso e contra campanhas alarmistas de promoção do mesmo, baseadas no medo e no horror.

No entanto, eu uso capacete quando faço BTT pelos montes fora – e recomendo a quem o faça – mas não uso capacete quando ando de bicicleta no dia-a-dia ou em passeio. Do mesmo modo que um piloto de ralis (ou de outra modalidade automóvel) utiliza capacete, e qualquer cidadão comum não o faz quando conduz o seu carro.

Normalmente respondem-me com esta: “- ah e tal, se caires de bicicleta e bateres com a cabeça, é melhor que tenhas capacete.” Concordo… seria melhor. E se ao atravessar a rua a pé, fosse atropelado, também seria melhor se levasse capacete. E se for de carro? Se tiver um acidente e bater com a cabeça, também é melhor levar capacete. Na realidade, as estatísticas mostram, que é muito mais provável termos uma lesão craniana num acidente de automóvel do que num acidente de bicicleta. Estas estatísticas (que podem ser consultadas nesta página) são feitas na sua maioria, nos EUA, ou seja, num dos locais do mundo onde a percentagem de mortos de bicicleta até é das mais elevadas. Apesar disso, os números não mentem, e a quantidade de actividades mais perigosas do que andar de bicicleta, deixam qualquer pessoa surpreendida.

Ou seja, trata-se apenas de gestão do risco. Toda e qualquer actividade humana tem uma componente de risco. Temos de saber lidar com ele.

FACTO: andar de bicicleta, exceptuando as vertentes radicais e/ou competitivas, é uma actividade segura.

FACTO: nos países onde há mais gente a andar de bicicleta, a percentagem de acidentes diminui substancialmente.

FACTO: o capacete per si não evita acidentes. Uma condução segura e defensiva, sim.

FACTO: nos países onde foram implementadas leis obrigando o uso do capacete, a utilização da bicicleta caiu de um modo significativo (ex. Austrália)

Este último ponto, é da maior importância, pois aparentemente, ao se obrigar o uso de capacete estaríamos a salvar vidas. No entanto, o número de vidas que se perdem pela consequente redução do uso da bicicleta é muito superior. Os benefícios para a saúde pública, resultantes do exercício físico que a utilização da bicicleta confere, são enormes e não devem ser descartados. (ver também este artigo).

Já vi muita gente a pedir a obrigatoriedade do uso no Código da Estrada – políticos incluídos. A inconsequência deste pedido é um reflexo da falta de informação sobre o assunto. Em Melbourne, Austrália, o sistema de bicicletas partilhadas está a ser um autêntico fracasso, pois a obrigatoriedade do uso do capacete, torna o mesmo muito pouco versátil – mesmo com a disponibilização de capacetes em máquinas de venda automáticas (5$ – um preço baixíssimo).

Nos últimos anos em Portugal, a prática de BTT tem  sido das actividades desportivas que mais tem crescido. E com ela, uma cultura de utilização do capacete. Se por um lado é positiva esta crescente prática desportiva, e com protecção adequada (dados os riscos inerentes à mesma), por outro lado, teve uma consequência perniciosa – as pessoas, associam a necessidade de uso do capacete, a uma actividade perigosa. É inseparável – se não fosse perigosa, então porque é que as pessoas utilizariam o capacete? Como já disse antes, considero a prática radical e/ou competitiva com risco suficiente para recomendar o uso de capacete (e concordo que o mesmo deve ser obrigatório em provas e passeios com este carácter). Mas a generalização do uso do capacete a toda a utilização da bicicleta, tem como consequência, uma imagem negativa da bicicleta do ponto de vista da segurança. Volto a repetir – andar de bicicleta normalmente, é uma actividade segura. Claro que se eu pedalar em altas velocidades, no meio do trânsito, colocando-me em situações de risco, então aí já não estamos a falar em pedalar normalmente. Daí o lema deste blog: A pedalar calmamente pela cidade, com estilo e sem stress.

Se a minha experiência pode servir para alguma coisa, aqui fica: eu tenho muitos kilometros feitos de bicicleta nos últimos 20 anos. Uns bons milhares em BTT, mas muitos mais, feitos em cidade, no meio do trânsito. Em BTT já tive inúmeras quedas, e já destruí 2 capacetes. Em cidade caí apenas 1 vez, sem qualquer consequência (com chuva e pneus fininhos, a baixa velocidade, distraí-me a subir um lancil na diagonal).

Se queremos ver a utilização da bicicleta crescer significativamente no nosso país, não podemos promover o uso do capacete com campanhas que prejudicam a imagem da bicicleta do ponto de vista da segurança. E certamente não podemos pedir legislação que venha desincentivar o seu uso.

Termino dizendo o seguinte: quem se sente mais confortável a utilizar o capacete quando anda de bicicleta, é livre de o continuar a fazer – devemos ter o direito a escolher como nos sentimos melhor. Mas já que o vão fazer, pelo menos escolham um modelo mais giro – a maioria dos capacetes que se vêem por aí não têm mesmo graça nenhuma…

Agora se todos os dias metem o capacete, só porque “disseram-me que devo usar” ou porque simplesmente nunca pensaram nisto, então secalhar chegou a altura de ponderar, e fazer uma escolha informada. Espero que este artigo tenha contribuído para isso.

EDIT – embora não relacionado directamente com capacetes, mas sim sobre o tema do risco e do medo, deixo aqui duas referências excelentes, ambas do investigador Tim Gill:

– No Fear – Growing up in a risk averse society (Download grátis do livro em formato PDF – pelo menos leiam o resumo de 4 páginas, que vale bem a pena)

– Tim Gill – Risk and Childhood (Video de uma fantástica palestra da RSA)

EDIT II – A propósito de capacetes para quem anda de carro


http://www.copenhagenize.com/2010/05/driving-without-dying-helmets-for.html

30 Respostas a “O que meter na cabeça

  1. PJL diz:

    Parabéns pelo artigo.
    Bem documentado e sintético o suficiente para que se leia e se pense seriamente no assunto.
    Claramente um mythBuster.

    Difícil, difícil, é encontrar capacetes que não pareçam saídos de um filme de ETs.

  2. Pedro diz:

    Eu sou do “lobby” 🙂 pró capacete…100%….cidade..BTT….tal como cinto de segurança é obrigatório para qualquer automobilista, seja ele de rally (mais sofisticados) ou no dia a dia (mais simples).
    De qq modo, acho o texto bastante equilibrado (e não fundamentalista)….Vou ver os links….e qto a capacetes com “graça”..de facto, escasseiam…:((((

  3. Parabéns pelo artigo. Excelente, bem documentado e com verdadeiro conhecimento de causa. Um excelente contributo para o esclarecimento.

  4. Bessa diz:

    Junto-me ao coro de felicitações, aqui está um artigo bem escrito e equilibrado, sobre um assunto controverso que divide opiniões numa comunidade já de si muito reduzida.

    Eu já fui fundamentalista do capacete, muito por culpa justamente do BTT. Actualmente sou “pro-choice” pelos motivos que aqui tão bem se explicam.

  5. Tiago Santos diz:

    Subescrevo integralmente o texto!

    O Miguel usa alguns argumentos que também costumo usar quando o assunto surge. Especialmente o parágrafo que diz: “Ou seja, trata-se apenas de gestão do risco. Toda e qualquer actividade humana tem uma componente de risco. Temos de saber lidar com ele.”

    Vou espalhar o artigo! 🙂

  6. João Pereira diz:

    Muito bem
    Acho que todos tem razão, mas questiono só mesmo uma questão, quem daqui que escreve e bem e melhor anda de bicicleta pelo que percebo já partiu capacetes em quedas? E não é preciso ser em btt, quem já bateu num carro e se não fosse o capacete teria ficado com bastantes feridas e vidros na cabeça, quem já circulava pela ciclovia calmamente e devido a alguns radicais de fato que por não saberem andar em grupo só fazem asneiras e fazem com que os outros caiam e partam capacete na borda do passeio.

    Falam muito e espero que um dia não estejam envolvidos numa situação destas, mas estes são casos reais não brinquem nem incentivem o não uso do capacete
    Vejam bem o ridiculo daquele anuncio do Santander que se vê um menino a colocar o capacete mas não o aperta ridiculo e perigoso.

  7. Miguel diz:

    João, ninguém aqui diz que o capacete não confere alguma protecção. Mas faço-lhe esta pergunta: quantas pessoas têm lesões cranianas em acidentes de automóvel? Muitas, mesmo muitas! Essas lesões podiam ser evitadas se andassemos todos de capacete dentro dos automóveis! Mas ninguém o usa porque os automóveis são seguros, não é?…

    O princípio é o mesmo… para mim a bicicleta é muito mais segura do que o automóvel, por isso não uso capacete. O que não invalida que eu um dia possa cair de bicicleta e bater com a cabeça… tal como posso ter um acidente de automóvel, tal como posso cair numa escadaria, ou ser atropelado numa passadeira.

  8. Jorge diz:

    Miguel,
    Não alinho na concordância da maioria dos comentadores do artigo, porque acho que a questão está mal formulada, pelo menos, essa, é a minha interpretação.

    O texto tenta provar que o uso do capacete,pode, em extremo ser prejudicial à segurança, certo? Se assim não fosse qual a necessidade do gráfico?

    Pegando em parte dos teu texto “FACTO: o capacete per si não evita acidentes. Uma condução segura e defensiva, sim.” Mas é claro que o uso do capacete não evita acidentes, pode evitar e mortes ou outras sequelas provocadas pelos acidentes. Por isso a consequência da segunda parte da afirmação nada tem a ver com a primeira, pois não?
    É quase como dizer que a utilização de cinto de segurança não evita acidentes, o que os evita é não passa nos sinais vermelhos 😉

    Reparei que num dos links que colocaste diz que na Califórnia os adultos não são obrigados a usar capacete. Isso levou-me a questionar, são só os adultos? Então e as crianças e adolescentes, será que é obrigatório os uso? Se sim porquê? Porque confere algum grau adicional de segurança, e ninguém tem o direito de decidir pela segunaça dos jovens?

    Isso levou-me a colocar no google três palavras, no primeiro Link cheguei ao seguinte site http://www.bhsi.org/mandator.htm que tem dados, esses sim, de facto reveladores. Tem afirmações como a seguite
    “The Insurance Institute for Highway Safety reports that 86 percent of bicyclists killed in 2005 reportedly weren’t wearing helmets.”

    Colocam uma tabela reveladora

    Bicyclist deaths by helmet use, 1998-2008
    Year No helmet use Helmet use Total*
    Num % Num % Num
    1998 741 98 16 2 757
    1999 698 93 42 6 750
    2000 622 90 50 7 689
    2001 616 84 60 8 729
    2002 589 89 54 8 663
    2003 535 85 58 9 626
    2004 602 83 87 12 722
    2005 676 86 77 10 784
    2006 730 95 37 5 769
    2007 646 92 50 7 699
    2008 653 91 58 8 714
    *Total includes other and/or unknowns

    Quanto ao gráfico que tenta relacionar a utilização da bicicleta com o número de mortes, não me vou alongar muito, número são números, mas a estatística costuma ser um ciência atreita a diversas interpretações, mas há meia dúzia que coisas que são basilares, por exemplo, quando se querem fazer correlações, temos que ter constantes e não só variáveis, certo? Aqui parece-me que demos demasiadas variáveis e poucas constantes.

    depois de ver o site que coloquei do link fiquei, com a certeza acerca das suspeitas que tinha. Andar de bicicleta pode ser uma actividade perigosa e o capacete pode salvar vidas.

    Pelo que me toca como não tenho problemas com o ser chic, vou continuar a usar o capacete, quer seja para ir comprar pão, quer seja para descer de Fanhões para CREL 😉

  9. Miguel diz:

    Jorge, lamento que tenha interpretado mal o artigo.

    “O texto tenta provar que o uso do capacete,pode, em extremo ser prejudicial à segurança, certo? Se assim não fosse qual a necessidade do gráfico?”

    O gráfico apenas mostra que nos países onde se anda mais de bicicleta, a segurança aumenta. Apenas isso. Agora a esta informação somamos os dados por exemplo, da Austrália, onde o uso do capacete foi tornado obrigatório. A utilização caíu a pique. Mas caiu mesmo significativamente. Se o uso da bicicleta se tivesse mantido inalterado, os benefícios para a saúde pública traduziriam-se em muito mais vidas poupadas do que as que a obrigatoriedade do uso do capacete veio poupar nos acidentes ocorridos.

    Esta campanha da ECF é para lutar contra o preconceito de que a bicicleta é perigosa. Esta ideia e as campanhas baseadas no medo que incitam as pessoas a utilizar capacete, levam a uma cultura propensa a criar leis obrigando o seu uso. E em todos os países onde isto sucede, a utilização da bicicleta diminui. Mais bicicletas, menos carros, é a fórmula para mais segurança. 9 em cada 10 acidentes mortais de bicicleta acontecem em colisões com automóveis. Mais carros, menos segurança.

    Para além disso, andar de carro, como já disse, é uma actividade muito mais perigosa – todos os anos, morrem mais de 1 Milhão de pessoas em acidentes de automóvel, e um quarto dessas são crianças – é a maior causa de mortalidade infantil por acidente. Ninguém usa capacete a andar de carro.

    Volto a ressalvar – não sou contra o uso do capacete – sou contra a promoção do mesmo baseada no medo e horror, e acima de tudo, contra leis que obrigam o seu uso.

    Tudo na vida tem risco. Tudo da vida, é relativamente perigoso. É apenas uma questão de gerir esses riscos, e saber lidar com o perigo. O medo deturpa a nossa percepção, e a desinformação (ou pior, informação incompleta) ainda são mais prejudiciais.

    Um excelente livro que recomendo sobre a matéria (medo, perigo e percepção do mesmo e as consequências para a sociedade): http://www.gulbenkian.org.uk/publications/education/no-fear (o livro é de download grátis – vale a pena, pelo menos ler o “PDF Summary” de 4 páginas)
    Do mesmo autor, pode-se ver este video: http://www.teachers.tv/videos/tim-gill-risk-and-childhood

  10. Jorge Cláudio diz:

    Miguel,

    São frases como esta que não ajudam à discussão
    “FACTO: nos países onde há mais gente a andar de bicicleta, a percentagem de acidentes diminui substancialmente.”

    “Para além disso, andar de carro, como já disse, é uma actividade muito mais perigosa – todos os anos, morrem mais de 1 Milhão de pessoas em acidentes de automóvel, e um quarto dessas são crianças – é a maior causa de mortalidade infantil por acidente. Ninguém usa capacete a andar de carro.”

    Seguramente não tenho sequer que contrapor, porque se pensares nelas verás que dizem muito pouco.

    Reparaste nos números do organismo americano, nos acidentes com bicicletas em 2008 91% dos mortos não usavam capacete enquanto que só 7% o faziam.

    Também acho que não se deve obrigar ninguém a usar capacete para andar de bicicleta, com uma excepção (eu obrigo os meus filhos).

    Mas pela mesma ordem de ideias porque obrigamos a usar

  11. Jorge Cláudio diz:

    Mas pela mesma ordem de ideias porque obrigamos a usar capacete quem anda de mota ou cinto de segurança quem anda de carro?

    Alguma razão há-de haver.

  12. Jorge Cláudio diz:

    ERRATA: no cometário anterior onde se lê

    “FACTO: nos países onde há mais gente a andar de bicicleta, a percentagem de acidentes diminui substancialmente.”

    queria colocar

    “FACTO: o capacete per si não evita acidentes. Uma condução segura e defensiva, sim.”

    Apresento as minhas desculpas pela troca!

  13. Miguel diz:

    Jorge, continuo a dizer – o capacete, na maior parte das situações pode sim, salvar uma vida! Nunca disse o contrário. MAS tem sempre que se pesar os prós e os contras.

    Basta ouvires um pouco a palestra do Tim Gill – o fenómeno da compensação do risco, é um facto comprovado em estudos. As pessoas quando se sentem mais seguras, tendem a colocar-se mais em risco. Esta frase serve para alertar, que o melhor modo de as pessoas se protegerem quando andam de bicicleta, é praticarem uma condução segura e defensiva. Para muita gente, antes de pensarem nisto, já estão a pensar no capacete.

    Em relação à frase: “FACTO: nos países onde há mais gente a andar de bicicleta, a percentagem de acidentes diminui substancialmente.” Coloquei-a para demonstrar a importância de aumentar o nº de pessoas a anda de bicicleta. Quantas mais, mais seguros estamos (para além de todas as outras vantagens). A promoção do capacete e as leis que obrigam ao seu uso, têm como consequência a redução do nº de utilizadores.

    Quanto à questão do exemplo automóvel, vê este artigo do Copenhagenize: http://www.copenhagenize.com/2010/05/driving-without-dying-helmets-for.html

    Quanto à questão de achares que deve ser obrigatório para as crianças, mais uma vez, no Copenhagenize tens um artigo que aborda as consequências disso – http://www.copenhagenize.com/2010/05/fewer-swedish-kids-cycling.html – ah, e já agora cruza essa informação com o gráfico que coloquei aqui sobre a obesidade infantil.

    Por fim, em relação aos números que apresentas, e também sobre as crianças, coloco-te aqui uma citação do Eng.Mário Alves (especialista em mobilidade):

    “(…)a análise da eficácia do uso de capacetes e principalmente as política públicas relacionadas, deverão ser sempre objecto de meta-estudos interdisciplinares e não se ficar pela análise de dados de bancos de emergência hospitalar. Sempre que houve meta-analises dos inúmeros estudos já realizados, a certezas sobre este assunto são sempre menores do que poderiam parecer no início da abordagem. Por outro lado sabemos que este tipo de estudos mono-disciplinares podem dar origem a falácias e irracionalidades bem conhecidas e documentadas. (…) Um estatístico conclui que atropelamentos de idosos são mais frequentes ao cair da noite, pelo que poderá concluir com alguma legitimidade, que um recolher obrigatório de idosos a partir das 4 da tarde, reduziria o número de mortos por atropelamento. Raciocínios semelhantes poderão ser encontrados para crianças e a sua relação com o risco. É de tal forma sedutor e lógico, que já começa a ser aceitável haver acusações de desleixo e “mau trato” em relação aos pais que deixam a criança ir a pé para a escola.(…)”

  14. anónima diz:

    Li na transversal. Está muito bom.
    Sou contra a obrigatoriedade do capacete.
    Porquê? Os números falam por si (sou Holandesa :))

  15. Conan diz:

    O uso obrigatório de capacete para as motos e cinto para os carros teve um único fito: diminuir o número de vítimas em acidentes. Houve ou há alguma preocupação real em diminuir o número de acidentes? Houve ou há alguma preocupação em tirar da estrada quem não tem capacidades para conduzir? Houve ou há alguma tentativa para reduzir A SÉRIO a velocidade dos carros? O que interessa é que “este ano morreram menos x por cento que o ano passado”. Como se as pessoas fossem meros números descartáveis. Quando muitas vezes isso (a diminuição do número de mortes) nem corresponde à verdade. O certo é que as estradas são cada vez mais largas, os carros cada vez mais potentes, os passeios cada vez mais estreitos e, em termos de segurança, as pessoas só se preocupam com o cinto e com o capacete! Conduzir um carro é muito mais perigoso (para quem conduz e para os outros) que pedalar na bicicleta. Se houvesse uma genuína preocupação relacional entre o que se usa e o sentido de segurança, então, para andares de carro, terias de usar capacete e um fato à prova de fogo, com calçado adequado, tal como é obrigatório para os pilotos das diversas especialidades automóveis.
    Acresce que, nisto da bicicleta e da segurança, se preocupam com coisas secundárias para o dia-a-dia, e as coisas importantes são ignoradas. Ultimamente vejo muitos ciclistas de capacete a pedalar de noite, sem luzes. Portanto, não há qualquer problema em serem atropelados por uma viatura motorizada ou por outro ciclista, pois como têm capacete estão seguros! Ver e ser visto? Que interessa? Usa capacete!

  16. Jorge Cláudio diz:

    Miguel,

    Eu não disse que deveria ser obrigatório o uso de capacetes nas crianças, o que digo é outra coisa, eu obrigo as minhas a usar!

    Mas reparei que há muitos estados e cidades americanas onde isso acontece.

    Acho que estamos todos de acordo, somos todos inteligentes e o nosso livre-arbítrio dá-nos esta fantástica capacidade de a todo o momento sabermos o que é melhor para cada um nós.

    Uns usam capacete porque acham que isso lhe garante segurança extra, outros não usam porque acham que isso não lhes aumenta a segurança, antes pelo contrário, outros não usam porque não é chic. Enfim, há opiniões para tudo.

    Mas quanto aos últimos que descasem parece que a Vuiton vai lançar uma linha de capacetes, depois já poderão andar na moda 😉

    Quanto aos resto acho que também todos estaremos de acordo, o que era mesmo bom era um cada vez maior uso da bicicleta!

    Ah não podia estar mais de acordo com a citação que publicaste e aplica-la aos gráficos. 😉

  17. Ana B. diz:

    Há ainda outro aspecto que não foi aqui discutido.

    Há estudos que comprovam que os automobilistas “arriscam” mais na ultrapassagem de um ciclista com capacete do que sem ele. Quando vêem algum sem capacete, ultrapassam normalmente mais devagar e com maior distância, porque sentem a pessoa “desprotegida”.

    Quantos de nós não foram já quase empurrados para a berma, senão mesmo “encostados” por um espelho retrovisor? Ou abanaram com a deslocação do ar de um grande autocarro ou de um carro veloz que passava?

    Alguém consegue encontrar referências para esses estudos? Já li um, mas não sei por onde ele anda nem tenho tempo para procurar. Mas um de vocês já deverá conhecê-lo, certamente 🙂

  18. Mário diz:

    Ana é o Ian Walker da Universidade de Bath:
    http://drianwalker.com/overtaking/

    Podem ver uma reportagem sobre o estudo aqui:
    http://www.youtube.com/watch?v=YdoE2YCvwdM

    Há aqui uma longa discussão nos comentários sobre o assunto:
    http://klepsydra.blogspot.com/2009_08_01_archive.html#1905689842612552386

    Abraços e parabéns, Miguel

    Mário

  19. […] ao tema dos capacetes, aqui ficam mais uns tantos artigos onde se analisa o assunto – uns de um ponto de vista […]

  20. Joaquim Simões diz:

    Não se andar de bicicleta por causa de ser obrigatório o uso do capacete é uma idiotice.

    Também acho idiotas os estudos que dizem que é mais prejudicial obrigar o uso do capacete porque está “provado” que haverá menos pessoas a andar, e por isso em vez de salvar vidas vai evtiar que mais pessoas melhorem as suas vidas (com os benefícios para a saúde)?

    Isso é estúpido, mas apesar de achar isso idiota acredito que é verdade e diz muito sobre as sociedades que com uma obrigação – que no fim de contas os vai beneficiar no caso de uma queda (acreditem que bater com a cabeça é muito fácil e comum, falo de experiência e muitos capacetes serviram de “buffer”) – não aceitam e preferem não andar?

    Depois há os famosos números… Comparem antes números que batam certo, x mortes por carro quando há um milhão de carros, tem que ser comparado em proporção e não “limpinho”, números apenas, é como mostrar os estacionamentos de bicicletas em Londres comparando com os de Lisboa 🙁 em Londres tem quase a população do nosso país, não é comparável assim…

    Já ouvi pessoas a dizer que não usam o capacete porque lhes estraha o penteado, que tristeza 🙁

    Por fim, tem o caso das crianças. Como é possível obrigar-se uma criança usar o capacete e o adulto não? é eficaz nas pequenas cabeças e não nas grandes, é isso?

    Falas que não és contra o capacete mas apenas contra a obrigatoriedade, mas a verdade é que as duas coisas estão quase coladas, e sinceramente não me afecta nada ser obrigatório, num país como este é preciso obrigar e mesmo assim não adianta muito, vê o caso dos telemóveis e conduzir, é proibido e vejo todos os dias vários condutores ao telemóvel.

  21. Miguel diz:

    Caro Joaquim,

    Isto não é uma posição leviana. Não é um tema sobre o qual acordei um dia, e resolvi que ia passar a pensar assim. Quando comecei a fazer BTT, há cerca de 20 anos, andava sempre de capacete, mesmo quando circulava em cidade. Uns anos depois, a ideia do capacete estava tão cimentada na minha cabeça, que era daqueles que censurava quem que eu visse na cidade sem capacete.
    Aconteceu que uns anos depois, comecei a ler mais sobre o assunto, a estudar bastante o que tem acontecido mundo fora, os estudos feitos, as campanhas, o que aconteceu nos países onde tais leis foram implementadas – a minha posição sobre o assunto, mudou e muito. Continuo a usar a capacete se vou fazer BTT… mas no dia-a-dia, como meio de transporte, deixei de usar…

    Quanto à comparação entre a bicicleta e o carro, nem sequer está feita pelo número de veículos, mas sim pelo nº de Kms percorridos – que é o modo que faz mais sentido – um carro ou uma bicicleta parados, ou que andem pouco, estariam certamente menos sujeitos a acidentes, certo?

    Se realmente se interessa sobre o assunto, recomendo a leitura do artigo com calma, e seguir uns tantos links apontados… pode começar por este da European Cyclists Federation: http://www.ecf.com/3500_1

    Cumprimentos, e obrigado!

  22. “As pessoas quando se sentem mais seguras, tendem a colocar-se mais em risco.”
    É por esta razão que que há tantos acidentes de automóvel.
    Também onde há mais bicicletas em circulação há, comparativamente, menos acidentes com elas. Os automobilistas estão preparados para o número de bicicletas que circulam. Além disso: + bicicleta = – automóvel
    Em Portugal circula-se de bicicleta no IC19… é proibido… Também se circula na 2ª Circular onde não sendo proibido é perigoso pois a velocidade máxima permitida é 80km/h.
    Eu uso capacete pela mesma razão que uso luvas e calções almofadados; seja no campo, seja na cidade. É uma questão de segurança passiva (além disso a pala do capacete é porreira para proteger os olhos da luz do sol). Do mesmo modo que ando de mota com luvas e casaco; não é obrigatório mas é segurança passiva. E é pela mesma razão que tento ao máximo cumprir com o código da estrada, mesmo quando isso me trás buzinadelas e outras situações menos próprias pelos outros condutores. Se todos cumprissem o código, nem sequer o uso do cinto nos automóveis e o capacete nas motos seria obrigatório. É muito bonito advogar a obrigatoriedade disto e daquilo em nome da segurança e depois não cumprir com as regras básicas, como os limites de velocidade. Às vezes também me distraio, não sou nenhum santo.
    Se o uso do capacete deve ou não ser obrigatório? Preocupem-se antes com a falta de legislação para o uso da bicicleta e a falta de civismo dos peões, ciclistas e automobilistas… de todos nós. Isto sim é falta de segurança.
    Só mais uma curiosidade: Moro em Sacavém, onde foi construída uma ciclovia toda pipi, lateral à antiga N10, e uma calçada bem larga. Os peões preferem o pouco mais de um metro da ciclovia ao invés da larga calçada e até chegam a insurgir-se contra os ciclistas que fazem uso da ciclovia. Isto sim é falta de segurança (civismo).

  23. paulofski diz:

    Foi através do testemunho da Ana que cheguei a este poste, a ele amarrei a bina, e fiquei a ler. Ora eu sou do tempo que quando pedalava a minha Orbita dobrável, capacete para ciclista era coisa que ainda não tinha sido inventada. A quantidade de sustos e de acidentes que tive desde então, foram apenas troféus guardados na minha pele em forma de cicatrizes nos joelhos e nas palmas das mãos… Por incrível que me possa parecer, as que ostento no couro cabeludo foram causadas por outras traquinices. Adiante. Sobrevivi sem um ter um kiko na cabeça. Acho que a preocupação de se proteger o crânio dos ciclistas gradualmente alarmou a opinião pública com alguns fatídicos acidentes de ciclistas profissionais. Recordo por exemplo o caso do Joaquim Agostinho. Assim que retomei as pedaladas, numa fase mais adulta da minha vida, comecei também a ornamentar a cabeça com capacetes, principalmente nas viagens mais ritmadas, em pelotão ou simplesmente servindo de exemplo e justificando ao meu filho para que desse utilidade ao seu enquanto me acompanhava. Já nas pedaladas ditas urbanas, à civil ou em chic mode, eu dispenso o uso do casco. Penso que é tão somente uma questão de bom senso, do que se pretende no uso da bicicleta, em adaptar o vestuário e a segurança consoante o ritmo das pedaladas e a escolha dos itinerários, tendo sempre em atenção dar prioridade e salvaguardar a integridade física. Caso os adultos não participem em provas desportivas, onde o risco é evidente, não concordo com a obrigatoriedade deste acessório, exceptuando no entanto a exigência das crianças o usarem na bicicleta como em outros equipamentos de laser como patins, trotinetes, etc.

  24. […] Numa pedelec, segundo o Código da Estrada, somos obrigados a utilizar capacete – algo que numa bicicleta convencional não é obrigatório. […]

  25. http://ciclomania-fbc.blogspot.pt/2012/04/o-capacete-o-meu-testemunho.html

    Em resumo: se não usasse capacete provavelmente hoje estava paraplégico ou pior.

    E por isso deixei de ir aos eventos cycle chic – não consigo evitar uma certa antipatia por quem faz tanta força para não se usar o capacete.

    Divirtam-se.

    Francisco

    • A.Santos diz:

      Sinto antipatia por quem quer obrigar os outros a terem determinados comportamentos. Só. É uma questão de liberdade e responsabilidade. Quem quer usa, quem não quer não usa. Simples.

  26. Miguel Estêvão diz:

    Parabéns pela partilha de opinião tão útil para quem se inicia pela troca de carro na cidade pela bicicleta. 🙂

  27. A.Santos diz:

    Só uma nota. Quem defende o uso de capacete quase de forma obrigatória, dizem que já partiram não sei quantos. Eu fico espantado. Eu só ainda caí uma vez e de facto bati com a cabeça no chão. Estava a arrancar e meti a roda num buraco junto ao passeio e perdi o controle da bicicleta. Caí, bati com o cu no chão e com a cabeça mas o pior foi exactamente o cu. Agora gente tão segura e a cair tanta vez e a partir capacetes? Faz-me confusão.

    • Um chapéu de esferovite… ao mínimo toque parte-se. É importante frisar que o diâmetro (e o peso) da cabeça altera-se com o capacete. Em algumas quedas onde a cabeça nunca tocaria no chão, ou tocaria ligeiramente, o capacete facilmente embate no chão por vezes com mais força (o impacto dá-se mais cedo e com uma velocidade maior). No entanto é verdade que em certas situações o capacete poderá proteger mais. Mas não tantas como muitas vezes nos querem dar a entender… como tenho dito, é uma questão de gestão do risco, da percepção real do mesmo, e da fé que por vezes se deposita nestes chapéus de esferovite.

  28. […] Já falei tantas vezes sobre isto… espero que esta imagem ajude a perceber. […]

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